Influenciadora é presa por lavar dinheiro para o PCC; “Ação tem caráter pedagógico”, diz PGJ

Polícia Civil e MPSP, por meio do GAECO, investigam esquema que movimentou R$ 327 mi

Operação Vérnix, deflagrada pelo MPSP e pela Polícia Civil na manhã desta quinta-feira (21/5), resultou na prisão preventiva da influencer Deolane Bezzera, de um homem operador do esquema, Marco Herbas Camacho, conhecido como Marcola, e do seu irmão Alejandro Camacho, ambos já cumprindo pena no sistema carcerário de segurança máxima em Brasília. Há mandados a serem cumpridos no exterior (Espanha e Brasília) contra dois sobrinhos do chefe do PCC. A força-tarefa cumpriu também 17 mandados de busca e apreensão com o objetivo de desbaratar um esquema de lavagem de dinheiro, que movimentou R$ 327 milhões, ligando o PCC à influenciadora.

“Esta ação tem um caráter pedagógico e efeito inibitório. Não tem caminho fácil. Não adianta ficar esfregando dinheiro na cara do jovem para ser advogado do PCC”, afirmou o procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, durante entrevista coletiva sobre a operação, classificada pelas autoridades como um oceano de lavagem de dinheiro. “A influenciadora consegue ser um ponto importante no esquema do branqueamento de dinheiro”, disse o PGJ, que desvinculou a operação desta quinta da deflagrada recentemente no Recife, na qual Deolane apareceu como alvo.

“Atingimos o andar de cima”, declarou o promotor de Justiça do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) Lincoln Gakya, que participou da entrevista remotamente da Itália, onde está para um encontro com as autoridades antimáfia do país. Ele defendeu um maior controle da abertura de empresas, já que Deolane abriu 35 delas usando um único endereço. “Trata-se de uma investigação de sete anos”, informou o secretário de Estado da Segurança, Nico Gonçalves. “Esse trabalho conjunto surtiu um efeito muito grande”, anotou o delegado-geral da Polícia Civil, Artur Dian.

A origem da apuração remonta ao ano de 2019, quando bilhetes e manuscritos foram apreendidos pela Polícia Penal no interior da Penitenciária II de Presidente Venceslau, em poder de dois sentenciados. O material revelou elementos relacionados à dinâmica interna da organização criminosa, à atuação de lideranças encarceradas e a possíveis ataques contra agentes públicos. A partir daquele momento, a Polícia Civil passou a aprofundar as diligências, instaurando, ao longo do tempo, três inquéritos policiais sucessivos, cada um responsável por revelar uma nova camada da estrutura criminosa investigada.

O primeiro inquérito teve como foco direto os dois sentenciados que estavam na posse dos manuscritos. A análise do material apreendido permitiu identificar referências a ordens internas da facção, contatos com integrantes de elevada posição hierárquica e menções a ações violentas contra servidores públicos.  Esses dois indiciados foram condenados e inseridos no sistema penitenciário federal. Ocorre que, dentre os trechos analisados, chamou atenção a citação a uma “mulher da transportadora”, que teria levantado endereços de agentes públicos para subsidiar ataques planejados pela organização criminosa. Essa menção deu origem ao segundo inquérito policial, que buscou identificar quem seria a mulher mencionada nos bilhetes e qual seria a relação da transportadora com o grupo criminoso. As diligências conduziram a uma empresa sediada em Presidente Venceslau, posteriormente reconhecida judicialmente como instrumento utilizado pelo crime organizado para lavagem de dinheiro. A investigação resultou na Operação Lado a Lado, que revelou movimentações financeiras incompatíveis, crescimento patrimonial sem lastro econômico suficiente e a utilização da transportadora como verdadeiro braço financeiro da facção.

Durante a fase ostensiva da Operação Lado a Lado, a apreensão de um aparelho celular abriu uma nova frente investigativa. O conteúdo extraído do dispositivo revelou conversas com pessoas ligadas à cúpula da facção criminosa, além de indícios de repasses financeiros e conexões com uma influenciadora digital de grande projeção nacional. A apuração ainda constatou que essa influenciadora possuía estreitos vínculos pessoais e negociais com um dos gestores fantasmas daquela transportadora. Foi a partir desse material que nasceu a Operação Vérnix, terceira etapa da investigação, agora voltada a descortinar um esquema mais amplo de lavagem de capitais, com ramificações empresariais, patrimoniais e financeiras.

Segundo a investigação, a influenciadora passou a ocupar posição de destaque no caso em razão de movimentações financeiras expressivas, incompatibilidades patrimoniais e indícios de conexão com integrantes do núcleo de comando da organização criminosa. Os levantamentos apontaram a utilização de pessoas jurídicas, recebimentos de origem não esclarecida, circulação de valores milionários e aquisição ou vinculação a bens de alto padrão. Para os investigadores, a projeção pública, a atividade empresarial formal e a movimentação patrimonial eram utilizadas como camadas de aparente legalidade para dificultar a identificação da origem ilícita dos recursos.

Os afastamentos de sigilos fiscal e financeiro revelaram um fluxo vultoso de dinheiro, com cifras sem lastro econômico compatível, movimentações bancárias atípicas, contas utilizadas para passagem de valores, operações envolvendo empresas sem capacidade financeira aparente e repasses que, segundo a Polícia Civil e o Ministério Público, não apresentaram justificativa lícita suficiente. A investigação também identificou o uso de estruturas empresariais e patrimoniais sucessivas, mecanismo que teria como finalidade dificultar o rastreamento da origem, circulação e destinação dos recursos.

Com base no conjunto probatório reunido, a Polícia Civil representou, com manifestação favorável do Ministério Público, por medidas cautelares de amplo alcance, posteriormente apreciadas pelo Poder Judiciário. Foram decretadas seis prisões preventivas, bloqueios de valores superiores a R$ 327 milhões, sequestro de 17 veículos, incluindo modelos de luxo avaliados em mais de R$ 8 milhões, além de quatro imóveis vinculados aos investigados. As medidas buscam interromper o fluxo financeiro ilícito, preservar ativos de possível origem criminosa e atingir a estrutura econômica que sustenta a atuação da facção.

A Operação Vérnix também possui dimensão internacional. Diante de informações de que três investigados estariam fora do país, respectivamente na Itália, na Espanha e na Bolívia, a Polícia Civil representou pela inclusão deles na Lista Vermelha da Interpol, por meio de difusão vermelha, a fim de viabilizar a localização internacional e a adoção das providências legais cabíveis, com direta atuação do Ministério Público e também da Polícia Federal. A deflagração contou com apoio operacional do Departamento de Operações Policiais Estratégicas (DOPE), que auxiliou no cumprimento das diligências.

Para a Polícia Civil e o Ministério Público, a Operação Vérnix representa mais um avanço no enfrentamento ao crime organizado sob a perspectiva patrimonial, atingindo não apenas operadores periféricos, mas também estruturas financeiras ligadas ao núcleo de comando da facção. A ação reforça que o combate ao crime organizado passa, cada vez mais, pela identificação e interrupção dos fluxos de dinheiro ilícito. Ao atingir bens, contas, empresas e patrimônio de alto valor, a investigação busca enfraquecer a capacidade econômica da organização criminosa, impedir a continuidade da lavagem de capitais e assegurar a responsabilização dos envolvidos.

Fonte: MPSP